Havia uma pequena vila, numa distante terra, onde tudo era belo e mágico. Onde seres fantásticos viviam entre os homens comuns, devotos de seus deuses, prestando-lhes oferendas e reverencias, com festas, músicas, danças e alegria. Tudo ia muito bem, a vila prosperava, o chefe estava feliz, os moradores também. Mas, o Mau espreita por onde a felicidade reina, procurando sempre uma brecha.
Mas não há felicidade sem amor e sem amor não há drama, inveja e desarmonia.
Uma das moças desta vila vivia com seu filho e seus pais, seu marido, bravo guerreiro da tribo, com medo da responsabilidade de educar sua cria, fugiu. Saiu para caçar e nunca mais retornou, deixando assim a pobre e bela moça com a responsabilidade de criar seu filho fazendo papel de mãe e pai, de guerreira e de protetora.
A vida segue, a criança cresce, e toda a vila segue vivendo suas vidas. Se reunindo para prestarem suas obrigações divinatórias como sempre. E como o mundo está sempre girando e se transformando, as relações das pessoas também está mudando. Alguns casaram, outros separaram, alguns tiveram suas crias, outros acolheram aquelas que não tinham o seu progenitor.
Essa criança, que sempre crescera de forma diferente, pois não tinha um pai que lhe ensinasse os ofícios “de ser homem”, agora o tinha! Ficava maravilhado em ter alguém para chamar de “seu herói”, e onde se via um deles, após uma rápida procura, se achava o outro. E assim foram vivendo, mais uma família feliz naquela terra em que tudo parecia perfeito.
Parecia perfeito, até que o Mau achou a sua brecha. Impregnou um homem com toda a sua malícia, inveja, falsidade e astúcia. E deixou que este se encarregasse de dizimar a vila, não com um ataque massivo e destrutivo, mas algo sutil, ardiloso e estruturado. Procurando aqueles com a cabeça mais fraca, mais suscetível ao seu ardil, infectou a mente e alma de alguns poucos. Mas a mentira é como a peste, se espalha rápido e tem efeitos devastadores.
Em pouco tempo, não mais se via a felicidade estampada no rosto de todos, algumas pessoas pareciam desconfiadas de sua própria sombra, não sabendo por que elas insistiam em perseguir-lhe. Surgiram figuras estranhas na vila, não sabiam de onde sugiram. Dizia-se que era de um povoado vizinho, outros diziam que tinham vindo de uma fenda no chão, no bosque próximo da vila, mas nada se confirmava. Coitados, mal sabiam eles o que estava por vir.
E a nossa criança, feliz por ter seu “novo pai”, começou a notar que ele já não era mais o mesmo, que este não mais o carregava para todo lado como antes fazia, que este já não mais queria o ser seu pai. Qual não fora o terrível pensamento desta criança, rejeitada pela segunda vez por aquele que deveria lhe instruir, educar e amar. Mas sua mãe, sempre presente, amorosa, capaz de mover as montanhas e buscar as estrelas do céu para o seu filhote, não deixou que este se perdesse em pensamento sombrios, e quando este “segundo pai” partiu, estavam preparados para o que viria.
E como uma nuvem negra, carregada com uma chuva de terror, deu-se o início do fim. O que antes era sutil e ardiloso transformara-se numa batalha campal. Agressões e acusações, mentiras escancaradas e esquemas para vantagem própria ou de poucos era o que se via. Os poderosos da vila tentam sobrepujar os mais humildes, acabaram sendo os primeiros corrompidos. E os primeiros condenados. Aqueles de mente fraca, meros fantoches utilizados como peças de manobra, desfaleceram como cinza soprada por uma forte brisa. E por fim, aos poucos bons que sobraram, sem terem juízes ou acusadores, esconderam-se na mata próxima a vila. E os dias se passaram, veio uma pálida manhã, que mais parecia um entardecer que não se concluía, e quando veio a noite, escura e silenciosa, parecia nunca ter havido uma vila ali naquele local...
O paradeiro da mãe e de seu filho não se sabe, se entraram numa fenda na floresta, se refugiaram numa vila distante ou se permaneceram na floresta, próximo aos seus deuses para depois criarem uma nova vila. Pense você o final que mais lhe agrada, mas posso garantir, infelizmente, a história terá um desfecho parecido com este.
O homem pode ser um animal muito estranho se quiser, mesmo sem querer, agindo com uma irracionalidade que não lhe é aparente, mas lhe é natural.
Esta história é uma ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.... Triste e desagradável coincidência.